9 de julho de 2011

Elegia

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual (...)


Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. (...)


Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. (...)


Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.



(Carlos Drummond de Andrade)

2 de julho de 2011

História da Resistência Indígena

Invasão e Escravização na Região Sudeste da América Portuguesa no século XVI

“Imagine um lugar onde as pessoas têm expectativa de vida inferior à de países africanos em guerra, onde a taxa de assassinatos (...) e a taxa de suicídios estão entre as maiores do mundo. (...) Imagine mais: além disso tudo, essa é a terra onde você nasceu, mas que lhe foi retirada à força por pessoas que se instalaram ali com o apoio do governo do seu próprio país, obrigando-o a se refugiar para sobreviver.“

Embora a dissertação anterior possa se parecer com algum relato da invasão portuguesa do atual território litorâneo brasileiro no século XVI, o excerto acima abre uma reportagem da revista brasileira “Caros Amigos” do século XXI (edição 51 do ano de 2010) acerca do genocídio indígena dos remanescentes Guarani-Kaiowá por fazendeiros e latifundiários no atual território do Mato Grosso do Sul, assim como o movimento de resistência indígena, outrora no plano físico, hoje no plano político, constatando um realidade fatídica que se estende por mais de cinco séculos de opressão e resistência.

Recorrentemente estimagtizados como agentes passivos no episódio histórico da invasão lusitana e escravização indígena no sul das Américas no século XVI, seja no ensino secular de História do Brasil e na historiografia conservadora e tradicionalmente eurocêntrica, recorro neste ensaio a fontes documentais da fase inicial colonial e a historiografia moderna, mantendo uma melhor compreensão acerca dos “brasis” e seu movimento de resistência durante a invasão portuguesa pós cabralina no século XVI.

Dentre os movimentos de resistência indígena que eclodiram no período, darei foco aqui a alguns mais representativos em termos de organização e contra-efeitos político-sociais na confrontação direta nativa frente ao invasor europeu, a exemplo da “Confederação dos Tamoios”.

Em linhas gerais, a Confederação dos Tamoios foi um movimento de revoltas e alianças entre povos indígenas do tronco lingüístico tupi, lideradas pela nação indígena Tupinambá em congregação também com os Goitacases, Aimorés e Temiminós, formada por tribos que ocupavam o atual litoral norte paulista, se estendendo desde Bertioga e litoral fluminense, até Cabo Frio, juntamente com tribos situadas ao longo do Vale do Paraíba na Capitania de São Vicente, contra os colonizadores portugueses, entre 1556 a 1567, com registros de incidentes remanescentes desde 1554. O termo "Tamoio" tem origem no vocábulo "tamuya" que em língua tupi significa "os velhos, os idosos, os anciãos", indicando que estes seriam as mais antigas tribos tupis com profundo enraizamento aos seus costumes tradicionais.  Além das nações indígenas, estiveram envolvidos os colonizadores portugueses e os franceses, fase na qual estes últimos ocuparam a Baía de Guanabara, a partir de 1555, para ali estabelecer a colônia da França Antártica.

Durante esta fase embrionária do projeto de colonização portuguesa da costa sudeste tupi, o lusitanos buscaram suprir-se basicamente de duas formas: sendo através do escambo ou da compra de cativos. A via do escambo consistia na troca de bugigangas e quiquilharias européias em troca de suprimentos, extração de matéria-prima ou contingentes de mutirões indígenas para desmatamento e cultivo de lavouras européias. O escambo obteve um bom resultado inicial e foi mais embasado numa relação mais simbólica do que econômica dos tupis para com os lusitanos, porém declinou rapidamente frente ao desinteresse cultural indígena sobre mercadorias de consumo.

De outra forma, os lusitanos buscaram reformular a base da economia colonial através da apropriação direta da mão de obra indígena, sobretudo na forma de escravidão. A princípio estes cativos eram obtidos com consenso jesuítico embasado no preceito das guerras-justas, onde prisioneiros de guerra inter-tribais poderiam ser escravizados como direito aos efeitos das mesmas. Porém, com as crescentes exigências de um número mão de obra permanente resultante do progressivo aumento da superfície preparada visada ao cultivo de cana de açúcar e seu processamento nos engenhos em implantação,  implicaram numa expoente angariação de cativos através dos chamados “saltos”, que consistiam na armação de navios que percorriam a orla marítima com a finalidade de atacar aldeias para captura de índios, que assim seriam vendidos com escravos.

A forma como esses grupos indígenas reagiram ao desencadear do processo colonizador acabou por modelar algumas alianças com os europeus em prol de seus interesses, a exemplo do estabelecimento pacífico dos portugueses frente aos Tupiniquins em São Vicente, em troca de apoio militar dos lusos contra seus inimigos tradicionais, os Tupinambás. Em contrapartida, estes últimos ao verificarem que os portugueses (perós) apoiavam seus rivais, se serviram da mesma estratégia, vindo a se aliarem aos franceses (mair) contra os lusos, ampliando desta forma os confrontos alternados e mesclados entre indígenas e europeus.

Observadas no âmbito sócio-cultural destas sociedades indígenas, algumas peculiaridades consideradas no contexto verteriam um crucial efeito e impacto na desestruturação destas sociedades e na dinâmica social, cultural e política dos nativos, frente às capturas, repressões e desestabilizações nas relações sociais, como exemplos: a divisão sexual do trabalho dos “brasis” que se dava por competência das mulheres nas atividades ligadas ao cultivo da terra (o que ampliaria frontalmente a resistência dos cativos à escravidão), a falta de prisioneiros das guerras tribais (cujo significado implicaria no cerne ritualístico e espiritual, onde os sacrifícios conferiam aos guerreiros incrementos de nomes dos inimigos aos seus), além das sanções jesuíticas contra antropofagia, o papel dos pajés e a poligamia, práticas estas intrínsecas de sua cultura.

A gradual ocupação das terras férteis pelos invasores, as tentativas de imposição do trabalho escravo e a repressão aos seus costumes e tradições criariam fortes obstáculos à manutenção da autonomia dos grupos indígenas e sua relações sociais, gerando movimentos de resistência armada no referido território dos tamoios confederados que afetariam o projeto em voga das capitanias lusitanas.

A tática adotada pela generalidade dos grupos indígenas, baseada na mobilidade de suas hostes terrestres e dos meios navais, consistia na realização de rápidas aportadas, incluindo incursões noturnas destinadas a atacar roças, fazendas e caminhos para capturar colonos ou seus escravos. Esta forma de atuação destinava-se a infundir o terror e espalhar a insegurança nos campos de forma a provocar o seu abandono. Quando julgavam possuir os efetivos suficientes, os indígenas tomavam a iniciativa de cercar as povoações habitadas por portugueses e índios aliados, procurando desalojar os defensores através da utilização de setas incendiárias e nuvens tóxicas de pimenta. No entanto, a gradual substituição das construções de madeira por edifícios em pedra com cobertura de telha, a edificação de estruturas defensivas dotadas de artilharia e a entrada em serviço de navios ligeiros (caravelões, bergantins e outros) armados com canhões impediram que os ameríndios tivessem conquistado uma única vila, apesar das diversas tentativas efetuadas. Essa diferença tecnológica e bélica se daria posteriormente  como fator crucial à suplantação lusitana da estrutura de resistência indígena.

Frente às revoltas iminentes, Brás Cubas, o governador da Capitania de São Vicente sob o governo geral de Mem de Sá, agiu na ampliação de alianças estratégicas, como a exemplo de João Ramalho, agente fundamental à expansão da influência e autoridade dos colonos. Dentre as práticas de alianças indígenas, estava o cunhadismo ou concubinato, através da qual um homem, ao se casar com uma mulher de uma determinada tribo, passava a ser membro dessa mesma tribo. João Ramalho, náufrago português na costa da capitania de São Vicente encontrado pela tribo dos Guaianases casou-se com a filha do cacique Tibiriçá, Bartira, batizada Isabel Dias, em casamento realizado pelo Padre Manuel da Nóbrega, do qual resultaram nove filhos além de outros tantos, de relações poligâmicas com as Guaianases. Com os filhos e parte da tribo, Ramalho estabeleceu postos no litoral para fazer comércio com europeus, vendendo índios prisioneiros de excursões pelo interior para serem escravizados, construindo bergantins, reabastecendo os navios em trânsito e negociando o pau-brasil.

A colaboração dos Guaianases com os portugueses resultou numa forte aliança que possibilitou, entre outros eventos, a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, em 1554, pelos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta e pelo cacique Tibiriçá.

A rivalidade entre as diferentes nações indígenas, associada à necessidade de força de trabalho escrava para o empreendimento da colonização, fez com que portugueses e Guaianases se lançassem sobre os Tupinambás, aprisionando a aldeia do chefe Tupinambá Caiçuru, sendo que todos os tupinambás aprisionados foram levados às terras de Brás Cubas. Com a morte de Caiçuru no cativeiro, seu filho, Aimberê, insuflando uma revolta e conseqüente fuga do cativeiro, indo para as terras da capitania do Rio de Janeiro, e constituindo o conhecido Entrincheiramento de Uruçumirim (como também era conhecida a Confederação dos Tamoios), passando a ser o chefe dessa retaliação contra os portugueses, junto com Cunhambebe. Aimberê reuniu-se, onde hoje é Mangaratiba no litoral sul fluminense, com os demais chefes Tupinambás: Pindobuçu e Koaquira, de Uyba-tyba, Cunhambebe, de Ariró, Guayxará, de Taquarassu-tyba. Sob a liderança de Cunhambebe e com o apoio de outras nações indígenas, como os Goitacases, os Tupinambás organizaram uma aliança contra os Guaianases e os portugueses.

Os franceses forneceram aos tupinambás armas para o confronto, visto que tinham interesse em ocupar a Baía de Guanabara. Com a morte de Cunhambebe durante uma epidemia (das quais as nações indígenas eram atingidas e muitas vezes dizimadas pela falta de imunidade frente a nova inserção virótica e bacteriológica européia), Aimberê passou a ser o líder da Confederação. A estratégia de Aimberê consistiu em ampliar ainda mais a Confederação, de modo a incluir o apoio dos Guaianases. Para isso, pediu a Jagoanharó, chefe dos Guaianases e sobrinho de Tibiriçá, que o convencesse a deixar os portugueses e a se perfilar à Confederação. Tibiriçá teve aparente concordância com o sobrinho e propôs que a Confederação o encontrasse, a fim de desfecharem um ataque final contra os portugueses.

No planalto de Piratininga (atual cidade de São Paulo) uma parte dos Tupiniquins reagia contra a oposição dos inacianos à suas tradições e costumes (descritas anteriormente), bem como a transferência dos moradores de Santo André da Borda do Campo (atuais cidades de São Bernardo do Campo e Santo André) para as margens do Anhangabaú.

Estes conflitos se acentuavam desde 1560, e eclodiram na rebelião do Anhembi em julho de 1562 dirigida por Piquerobi e Jagoanharó, irmão e sobrinho do morubixaba (líder tribal) Martim Afonso Tibiriçá. Os revoltosos puseram cerco à Vila de São Paulo, entretanto, Tibiriçá permaneceu fiel aos portugueses e tendo os seus defensores, comandados por João Ramalho, capitão para a guerra, resistindo ao assédio dos Tupiniquins e desferindo um contra-ataque aos mesmos, resultando em sua derrota e na morte de Jagoanharó. Entretanto, os Tamoios previam a traição do cacique Tibiriçá e posteriormente avançaram sobre os Guaianases e portugueses, infligindo-lhes pesada derrota, que resultou também na morte de Tibiriçá.

Servindo-se de diplomacia a seus interesses de influência e expansão da catequização aos indígenas, os jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta intermediaram uma trégua temporária, sobre a qual os portugueses cederam em libertar os indígenas escravizados, os quais serviriam à catequese. No entanto a perspectiva de desenvolvimento econômico que a “paz” prometia ressurgia com toda força na luta pela mão de obra indígena, caracterizada pela competição direta entre jesuítas e colonos, onde estes últimos atribuíam a resistência indígena ao controle absoluto dos mesmos exercido pelos jesuítas.

Com o fim da trégua, deu-se o fortalecimento da colonização portuguesa, com os portugueses se lançando sobre as aldeias indígenas, matando e escravizando a população. Os Tupinambás foram gradualmente recuando em resistência da investida lusitana e se retirando em direção à baía de Guanabara. Em 1567, com a chegada de reforços para o capitão-mor Estácio de Sá, que fundara, dois anos antes, a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro, iniciou-se a etapa final de expulsão dos franceses e de seus aliados Tamoios da Guanabara, resultando na dizimação dos Tupinambás e a morte de Aimberê quando da Guerra de Cabo Frio.

Mesmo com a derrota final dos Tamoios, ficou claro ao empreendimento colonizador português que seria difícil usar os indígenas como força de trabalho, dada a trama sócio-política das rivalidades entre as sociedades tribais e a permanente desvantagem numérica européia, potencializando a possibilidade de rebeliões e de dizimação dos assentamentos coloniais. Além da luta armada, os indígenas adotaram também outras formas de resistência à ocupação territorial, à escravização, à miscigenação e às missões jesuíticas entre outras modalidades de aculturação, adotando formas diversificadas de resistência, como os movimentos migratórios em direção ao sertão, os surtos do profetismo Tupi-Guarani (como a crença na Terra sem Mal, com exemplo de um contingente de 1.200 índios conduzidos por um caraíba numa longa marcha rumo ao território do Peru, onde dez anos mais tarde chegariam com somente 300 sobreviventes), fugas individuais e em massa, e até mesmo suicídio, como a prática tradicional da geofagia (suicídio pro via de ingestão de terra).

Em detrimento à problemática da escravização indígena, viria-se a ampliar dessa forma a prática da escravidão africana, com a prática comercial do escambo, utilizando a troca de pessoas por mercadorias, segundo o modelo econômico do mercantilismo. Sendo a captura do índio um negócio quase interno da colônia, onde freqüentemente até o “quinto” devido (imposto) era sonegado à Coroa, o comércio ultramarino de escravos trazia excelentes dividendos tanto ao governo quanto aos comerciantes e traficantes. Dessa forma, Coroa e jesuítas apoiavam indiretamente ao tráfico negreiro, estabelecendo uma espécie de malha limitante à escravidão indígena.

Desde então, quase cinco séculos se transcorreram na formação do Brasil e da sociedade “nacional (se é que assim podemos chamá-la), e adentramos ao século XXI no âmbito da produção de uma nova historiografia moderna que começa a se desenvolver em contraposição aos mitos de inferioridade de agência e passividade indígenas, seculares na historiografia tradicionalista e reacionária nacional, agora em transposição.

“A perseguição sempre existiu. A vida toda a gente foi castigado e chamado de caboclo. Mas aqui nós nunca deixamos de ser índios. Nunca deixamos de fazer nossa festas, tomar os remédios do mato. Nem de dizer onde eram nossas terras.”, reivindica Maria da Glória de Jesus, rezadeira da aldeia da Serra do Padeiro, do povo Tupinambá, em entrevista à uma revista política de circulação nacional publicada na cidade de São Paulo, no ano de 2010. 
Ricardo Luiz
Junho de 2011

Bibliografia:  

1.     COUTO, Jorge. A Construção do Brasil. Edições Cosmos, Lisboa. 1995
2.     MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra – Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. Companhia das Letras, 1994.
3.     CUNHA, Manuela Carneiro da e MONTEIRO, John Manuel. História dos Índios no Brasil. Companhia das Letras, 2009.
4.     PINSKY, Jaime. Escravidão no Brasil. 20ª. Ed. São Paulo. Ed. Contexto. 2006
5.     MONCAU, Joana; PIMENTEL, Spensy. “O Genocídio Surreal dos Guarani-Kaiowá”. In: Revista Caros Amigos, No. 51. Ed. Casa Amarela. 2010.
6.     NAVARRO, Cristiano. “Caboclo, não. Tupinambá!”. In: Revista Caros Amigos, No. 51. Ed. Casa Amarela. 2010.

29 de maio de 2011

Via de Regra


Entendo os garotos que se recusam à freqüentar escolas, assim como os velhos que relutam à visitar os médicos, se escondendo de prováveis doenças.

Muito poucos tem a certeza pungente dentro de si sobre aquilo que são e do que lhes cabe na vida e no mundo.

Quiçá uma nebulosa porém fiel intuição do caminho, ao contrário destes aí, seguros e mornos, flutuantes amebas no intestino do organismo de sua sociedade.

Pudera eu ser mais eu do que creio ser nesse momento.

Pudera transcrever tal condição em afirmativa no meu livro de verdades, caso não fosse esse maldito e sensato gosto de fel que me borra a língua e o pensamento ao me forçar à provar tal engano.

Veja os cães correndo atrás dos carros, como são felizes. Observe a criança lhes arremessando o graveto. Você ousaria tentar entendê-los?

A harmonia entre a mão, o graveto, o cão e a roda é inexplicável pelo simples fato de não requerer explicação nem teoria.

Não existem teorias no campo da felicidade.

Garotos fugitivos de escolas talvez o tenham descoberto tão antes. Que por via de regra nada se aprende. Ou melhor : que nada se descobre, ou que se conquista.

Que apenas simplifica-se possíveis mistérios já revertidos ao óbvio pela própria lei da natureza através de algum homem ex-garoto-detento-fugitivo.

Sua única lei é “sua própria natureza”. E sua natureza preservada e não violada sempre será marginalizada por via da “regra”.

Quanta genialidade é vedada pela via da regra?

Marginal, por via de regra. A voz no comando: “- Não fuja da estrada nem sai da linha, ou estarás sempre à margem, garoto!”. Marginal, por via de regra.

À margem do quê?

Entendo os garotos que se recusam à freqüentar escolas, assim como homens que não se dobram à nenhum tribunal.

Entendo os garotos que fogem da escola, assim como o animal livre que resiste à puxar fardo e à ruminar a vida num imenso curral. Pra morrer de joelhos no abate final.

Garotos em fuga, cachorros de rua e cavalos selvagens. São almas aladas.

Entenda-os, se puder.


(RL)

30 de abril de 2011

Imagine

Obra prima de John Lennon na releitura da banda A Perfect Circle, na trilha sonora do documentário de Zeitgeist III - Moving Forward. (RL)


"Numa sociedade decadente, a Arte, se for verdadeira, deve também refletir a decadência. E a menos que queira atraiçoar a sua função social, a Arte deve mostrar o mundo como mutável e ajudar a mudá-lo. " (Ernst Fischer)

12 de abril de 2011

Fragmento #11411


E então eu disse a ele:

- Você, que é um dos poucos daqueles que não se esquivam do soco na hora do soco, sabe bem que, por aqui, todo fardo tem seu espaço, seu tempo e seu preço. Agora que a farsa da vez acabou, que as máscaras rotineiras caíram, pelo menos por hora recue um pé atrás, respeite seu tempo, seu fôlego, sua cara no espelho sem aquele olhar esquivo que trajamos na usual obrigação. Escute novamente por detrás do ruído a frequência oculta, o som do nada, do todo, do eu, e retome inicialmente a sensação esquecida do ser, dispersa usualmente pelo incômodo, pela insatisfação, pelo servilismo, pela infâmia mundana à qual nos submetemos no mais e mais sem cessar. Sem desespero não há desespero. Sem obrigação não há obrigação. Há que se ter água no cantil. Há que se ter víveres no alforge. E isso é vital, sabemos. Mas somente isso e isso somente não basta para se alçar o grande vôo. A grande travessia. Não se pode ultrapassar a grande fronteira com a fronte apática, com o coração seco, com o ânimo plástico. Todos precisamos de todos. A grande resposta negada ao viciado rito social já rompe seus limites do material-individual ao vital-comum após séculos de usurpação consentida. A hora urge à nossa frente, diante de nossos olhos cuspindo a urgência da retomada à origem. Sermos ao invés de iniquamente existirmos. Sem mais desculpas. Sem mais dilemas. Sem mais atalhos, subterfúgios, protelações. Cabeça em pé, olhos fitos no horizonte de um destino inventado, passo a passo.

Conta comigo.

(RL)

4 de abril de 2011

Miopia da Ascenção Social

A imagem vale por mil palavras.   (RL)


A burguesia quer ser sócia do Country
Quer ir a New York fazer compras

Os guardanapos estão sempre limpos

As empregadas, uniformizadas
São caboclos querendo ser ingleses


Mas também existe o bom burguês
Mas este quer construir um país
E não abandoná-lo com uma pasta de dólares


O bom burguês é como o operário
É o médico que cobra menos pra quem não tem
E se interessa por seu povo
Em seres humanos vivendo como bichos
Tentando te enforcar na janela do carro
No sinal


(Cazuza)



23 de março de 2011

Indústria da Carnificina

Sempre engajado no ativismo em prol da proteção animal, Paul McCartney produz e lança o mini-documentário "Glass Walls - Paredes de Vidro" para informação e conscientização global acerca da realidade sobre a "indústria da carne". Como ele mesmo diz no documentário, "Se os abatedouros tivessem paredes de vidro seríamos todos vegetarianos". O tom aqui é de denúncia dos bastidores da "indústria da carnificina" (abatedeouros industriais) e de conscientização social, trazendo uma proposta, não de uma conversão radical planetária ao vegetarianismo, mas sim a redução gradual do consumo de carne na alimentação global, além da e a abertura de uma discussão planetária acerca do tratamento irracional, imoral  e hediondo empregado na mesma.



Um filme-documentário de maior abrangência é "Earthlings - Terráqueos" de 2005. Produzido por Shaun Monson, com narrativa do ator Joaquim Phoenix, o filme mostra como funcionam as fazendas industriais e relata a dependência da humanidade sobre os animais para obter alimentação, vestuário e diversão, além do uso em experimentos científicos. O filme faz estudo detalhado das lojas de animais, das fábricas de filhotes e dos abrigos para animais, assim como das fazendas de criação de gado, suinos, frangos, aves, do comércio de peles e de couro, das indústrias da diversão e esportes, e finalmente, do uso médico e científico.  "Terráqueos" usa câmeras escondidas para detalhar as práticas diárias de algumas das maiores indústrias do mundo, todas visando o lucro com os animais. (fonte: http://www.terraqueos.org/ - site oficial do filme: http://www.earthlings.com/) .



"A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados. "
(Mahatma Gandhi)
(RL)

Cotidiano Social


por Laerte.

18 de março de 2011

Fragmento #11318

E então eu disse a ele:
- Você precisar decidir de qual lado vai ficar: do de quem quer se dar bem acima de tudo, ou do de quem quer construir uma vida mais simples, sábia e justa.
E então ele esbravejou xingamentos, injúrias e calúnias, chutou algumas pedras e seguiu seu caminho. Consumindo, oprimindo, mentindo, matando, poluindo, extinguindo, acumulando, destruindo, assaltando, explorando, estripando e aniquilando.

Indireta e conscientemente, como todos os outros.

(RL)

War - No More Trouble



Until the philosophy which hold one race
Superior and another inferior
Is finally and permanently discredited and abandoned
Everywhere is war, me say war.

That until there are no longer first class
And second class citizens af any nation
Until the color of a man's skin
Is of no more significance than the color of his eyes
Me say war.

That until the basic human rights are equally
Guaranteed to all, without regard to race
Dis a war.

That until that day
The dream of lasting peace, world citizenship
Rule of international morality
Will remain in but a fleeting illusion
To be pursued, but never attained
Now everywhere is war, war.

And until the ignoble and unhappy regimes
That hold our brothers in Angola, in Mozambique,
South Africa sub-human bondage
Have been toppled, utterly destroyed
Well, everywhere is war, me say war.

War in the east, war in the west
War up north, war down south
War, war, rumours of war.

And until that day, the Efrican continent
Will not know peace, we Africans will fight
We find it necessary and we know we shall win
As we are confident in the victory.

Of good over evil, good over evil, good over evil
Good over evil, good over evil, good ever evil.

We don't need no trouble,
We don't need no trouble...

What we need is love!

(Bob Marley / Allen Cole / Carlton "Carlie" Barrett)

15 de março de 2011

E Quem de Nós Será?


e quem de nós
será o primeiro a levar consigo
o tiro da liberdade a correr
o risco do desapego da ilusão
da vida sem honra que justifique-nos 
à existência sem resistência
onde chegamos senão além
da própria sombra de nossas costas
por trás de acorrentados calcanhares
cortados por, pior que palavras,
nosso silêncio vil, econômico
de quem se poupa à seu prejuízo
e em contas quitas com um destino
sem movimentos nem elementos
que vos eleve à seus próprios
olhos a enxergar pra dentro
de si mesmos sem ter vergonha
da covardia que congelando
tua própria língua também te ata
a teu mudo eco com tua alma
calada  e seca e vazia e
solitária e inerte e fria e inútil
e sem sentido, sem, sentindo
como quem diz sentir
sofrimento de não sentir
sequer (sabe o quê)?
mentir então é só
o que fazes por ti
mesmo, filho de ninguém ?

mentir ? pior
a quem senão ti mesmo
sabes mas não assumes que
sabes que não assumes que
só assumes que nada sabes e
nada sabes de então querer saber
querer assumir e assim saber que
queres assumindo o saber não mais
com tudo sofrer.

sofrer?
e quem de nós a sofrer ao
nada ver em ninguém senão
reflexo daquela sombra mesma
a abraçar e sufocar e imitar e
arrastar-te para fora das casas à
tua própria rua deserta como
um exército morto e esparramado
pelas derrotas impecáveis e
pecavelmente entregues
por quem senão tu mesmo
a entregar sem luta, sem amar, sem
censurar a si próprio quando lutar por
amar a se entregar sem
censurar ao amor de nós
mesmos a levar do ontem
ao amanhã, agora.

e quem de nós a levar?
será o primeiro?

consigo o tiro da liberdade
a correr o risco do desapego,
e a tirar, consigo primeiro

a Liberdade!


 
(Ricardo luiZ)

5 de março de 2011

28 de fevereiro de 2011

Dancem Macacos, Dancem!



Há bilhões de galáxias no universo observável
E cada uma delas contém centenas de bilhões de estrelas
Em uma dessas galáxias
Orbitando uma dessas estrelas
Há um pequeno planeta azul
E este planeta é governado por um bando de macacos
Mas esses macacos não pensam em si mesmos como macacos
Eles nem sequer pensam em si mesmos como animais
De fato, eles adoram listar todas as coisas que eles pensam separá-los dos animais:
Polegares opositores
Autoconsciência
Eles usam palavras como Homo Erectus e Australopithecus
Você diz to-ma-te, eu digo to-ma-ti.
Eles são animais, certo?
Eles são macacos
Macacos com tecnologia de fibra ótica digital de alta velocidade
Mas ainda assim macacos
Quero dizer, eles são espertos, você tem que conceder isso
As pirâmides, os arranha-céus, os jatos, a Grande Muralha da China
Isto tudo é muito impressionante
Para um bando de macacos
Macacos cujos cérebros evoluiram para um tamanho tão ingovernável que agora é bastante impossível para eles ficarem felizes por muito tempo
Na verdade, eles são os únicos animais que pensam que deveriam ser felizes
Todos os outros animais podem simplesmente ser
Mas não é tão simples, para os macacos
Pois os macacos são amaldiçoados com a consciência
E assim os macacos têm medo
Os macacos se preocupam
Os macacos se preocupam com tudo
Mas acima de tudo com o que todos os outros macacos pensam
Porque os macacos querem desesperadamente se encaixar
Com os outros macacos
O que é bem difícil, porque a maior parte dos macacos se odeia
Isto é o que realmente os separa dos outros animais. Estes macacos odeiam
Eles odeiam macacos que são diferentes
Macacos de lugares diferentes
Macacos de cores diferentes
Sabe, os macacos se sentem sozinhos
Todos os seis bilhões deles
Alguns dos macacos pagam outros macacos para ouvir seus problemas
Os macacos querem respostas
Os macacos sabem que vão morrer, então os macacos fazem deuses
E os adoram
Então os macacos começam a discutir quem fez o deus melhor
E os macacos ficam irritados, e é quando geralmente os macacos decidem que é uma boa hora de começar a matar a uns aos outros
Então os macacos fazem guerra
Os macacos fazem bombas de hidrogênio
Os macacos têm o planeta inteiro preparado para explodir
Os macacos não sabem o que fazer
Alguns dos macacos tocam para uma multidão vendida de outros macacos
Os macacos fazem troféus e então eles os dão para si mesmos
Como se isto significasse algo
Alguns dos macacos acham que sabem de tudo
Alguns dos macacos lêem Nietzsche
Os macacos discutem Nietzsche
Sem dar qualquer consideração ao fato de que Nietzsche
Era só outro macaco
Os macacos fazem planos
Os macacos se apaixonam
Os macacos fazem sexo
E então fazem mais macacos
Os macacos fazem música
E então os macacos dançam
Dancem, macacos, dancem!
Os macacos fazem muito barulho
Os macacos têm tanto potencial, se eles pelo menos se dedicassem...
Os macacos raspam o pêlo de seus corpos numa ofensiva negação de sua verdadeira natureza de macaco
Os macacos constroem gigantes colméias de macacos que eles chamam de "cidades"
Os macacos desenham um monte e linhas imaginárias na terra
Os macacos estão ficando sem petróleo, que alimenta sua precária civilização
Os macacos estão poluindo e saqueando seu planeta como se não houvesse amanhã
Os macacos gostam de fingir que está tudo bem
Alguns dos macacos realmente acreditam que o universo inteiro foi feito para seu benefício
Como você pode ver, esses são uns macacos atrapalhados
Estes macacos são ao mesmo tempo as mais feias e mais belas criaturas do planeta
E os macacos não querem ser macacos
Eles querem ser outra coisa
Mas não são.



Autoria: Ernest Cline – apenas outro macaco

19 de fevereiro de 2011

Sobreviventes


A TEIA DE ARANHA
Bebeágua, sacerdote dos sioux, sonhou que seres jamais vistos teciam uma enorme teia de aranha ao redor de sua aldeia. Despertou sabendo que assim seria, e disse aos seus: Quando essa estranha raça termine sua teia de aranha, nos trancará em casas cinzentas e quadradas, sobre terra estéril, e nessas casas morreremos de fome.



O PROFETA
Deitado na esteira, de boca para cima, o sacerdote-jaguar de Yucatán escutou a mensagem dos deuses. Eles falaram através do telhado, montados sobre sua casa, em um idioma que ninguém entendia.
Chilam Balam, que era boca dos deuses, recordou o que ainda não tinha acontecido:
- Dispersados serão pelo mando as mulheres que cantam e os homens que cantam e todos os que cantam... Ninguém se livrará, ninguém se salvará... Muita miséria haverá nos anos do império da cobiça. Os homens, escravos haverão de fazer-se. Triste estará o rosto do sol... Se despovoará o mando, se fará pequeno e humilhado... 

* trechos do livro "Memória do Fogo Vol.1 - Os Nascimentos" de Eduardo Galeano