29 de outubro de 2013

A Cor da Violência Policial


Notícias seculares - SP: adolescente morto por PM é enterrado sob comoção e revolta

"Sérgio Martins, vizinho de Douglas, disse que presenciou a abordagem policial. "Eu estava sentado na frente de um bar e vi a polícia passando. De repente, eles voltaram, e, quando pararam, já ouvi o tiro. Ninguém falou nada antes do disparo. A única coisa que eu ouvi depois foi o Douglas dizendo: 'por que o senhor atirou em mim?'", disse ele."

"Helena Martins Santana, avó materna do garoto, lembrou que há 20 anos perdeu seu filho de maneira semelhante. "Também foi em um domingo e enterramos o corpo dele na segunda-feira. Foi só porque meu neto era pobre. Eu perdi meu filho de 18 anos do mesmo jeito. Morto pela polícia. Ele não fez nada de errado", disse ela."

Os neo capitães do mato agem novamente. E de novo. E de novo. E novamente, a mando de um estado representado e controlado por uma histórica classe senhorial, suportada por um eleitorado classistamente mediano, sobretudo em regiões mais conservadoras e reacionárias do país, como o estado de São Paulo.

As estatísticas, ocultadas pela mídia oligárquico-senhorial neo feitora, apontam para genocídio sistemático. A violência, militarizada, deliberada, abusiva e disfarçada de autoridade ordeira, além de práxis cotidiana bem conhecida pelas periferias brasileiras, espelha a corrosão de valores aparentes de tutela social do Estado e a corrupção que permeia toda a hierarquia institucional do Estado brasileiro.

O perfil das vítimas é sempre o mesmo: jovem, preto, pobre. Segundo estudos atuais, existe racismo institucional no país, expresso principalmente nas ações da polícia, mas que reflete o desvio comportamental presente em diversos outros grupos, inclusive aqueles de origem dos seus membros.

Em meio à essa guerra ocultada, todo e qualquer levante popular contra a barbárie policial racista será sempre criminalizado e deslegitimado quando narrado através da boca do feitor midiático, capataz de sinhozinho estatal e privado. Afinal, quilombo é quilombo e resistirá em toda e qualquer estrutura sócio-político-ideológica exclusora, violenta e racista.

Sinhozinho é bom negócio para feitor. Feitor é bom negócio para capitão do mato. Carne preta da neo senzala é bom negócio para neo engenho de sinhozinho, feitor e capitão do mato. Estes, gente do bem, contra o mal inventado por eles, em seu podre negócio mundano. E de novo. E de novo. E novamente.
 
Até quando?


(RL)

28 de outubro de 2013

Dez Mil Galáxias...

... através de um olhar do telescópio Hubble.
 
 
"Dois homens olham pela mesma janela.
Um vê a lama. O outro vê as estrelas."
 
Frederick Langbridge

15 de outubro de 2013

Professor


“- Bombeiro!”
Essa foi  a resposta que dei durante toda minha infância e até o início da adolescência, quando questionado sobre “o que queria ser quando crescer”. Não, eu não queria ser soldado. Nem engenheiro, nem magistrado. Eu não queria ser jogador de futebol na Europa. Também não queria ser qualquer tipo de celebridade, como a maioria das crianças, hoje. E tão pouco pensava materialmente no futuro (vida adulta monetária). Ainda não havia sido adestrado a isso, a “vida” ainda não havia sido ditada à mim como uma regra do sistema, fora e apartada do presente, como uma contínua promessa futura. As crianças, dentro de sua brutal e livre sinceridade (vista como defeito a ser socialmente reparado) realmente dizem quem são quando dizem o que querem fazer de suas vidas.
Cresci num bairro de periferia, onde vivo até hoje. Filho de operário e professora, com mais dois irmãos pra rachar um quarto. Muitas contas à vencer, casa comprada em centenas de prestações, grana dos pais contada pras despesas do mês, aluno de escola pública, arroz, feijão e ovo no cardápio diário (aos fins de semana tinha carne) e um par de tênis apenas no armário (o qual muitas vezes era perseguido pelo maldito furo na sola), jogando bola e fubeca com os moleques na rua e no terrão perto de casa como diversão (algo hoje inconcebível ao paulistanóide médio).
Terminando o ensino fundamental (ginásio, como era chamado na época), meu pai teve comigo a velha conversa que todo pai operário tem com seu filho sobre o futuro, o presente, a condição, a realidade do sistema e a necessidade de trabalhar o quão antes para ajudar financeiramente em casa. Foi quando me foi posto e aberto o “menu das profissões” à minha frente - eu, um garoto de 13 anos de idade tendo que “escolher” o que fazer pelo resto de minha curta e breve existência.
Nessa altura do campeonato (adolescência) eu a havia descoberto e havia me apaixonado de corpo e alma pela música, mais propriamente o rock, através de discos dos Beatles abandonados pelos meus tios na casa de meus avós. Eram os anos 80, os gloriosos anos do rock, do heavy metal e do punk por nossas terras, e havia decidido que queria ser músico. Só havia um pequeno problema - “bombeiro” e “músico” não constavam na lista das profissões de sucesso financeiro do cardápio profissional convencional do sistema "produtivo".
Pois afinal, salvar vidas e animar seus espíritos não geram lucro nesse mundo inventado pelos senhores de nosso tempo.
Filho de peão arremessado à concorrência no sistema de ensino médio técnico público, passei em três vestibulinhos de três gloriosas e excitantes carreiras profissionais – informática, eletrônica e química. (lembre-se: eu queria ser bombeiro ou músico). Com um totozinho do velho, acabei optando pela informática ("a profissão do futuro!", nos anos 80). Daí pra frente, foram quase duas décadas de história. Uma história de uma carreira “bem sucedida” no plano material e de frustração/insatisfação pessoal, como a da imensa maioria das pessoas arremessadas e coagidas às restrições existenciais do mercado de trabalho do sistema produtivo (ou destrutivo) atual.
Curioso é que meu primeiro emprego nesta área (oxalá, hoje noutra), talvez tenha sido o melhor de todos. Por acaso do destino, meu primeiro emprego viria a ser o de “professor”. De informática, claro (fazer o quê?), nesses cursos de microcomputação (que era novidade no final dos ´80). Também curiosamente, com meu 1º. salário deste trabalho, comprei meu primeiro instrumento musical, vindo a me tornar músico, paralelamente ao meu emprego financeiro. Alguns anos mais tarde, e paralelamente também (sempre vivi múltiplas vidas em uma), me tornei professor voluntário numa ONG assistencial numa favela próxima à meu bairro, com um projeto de educação cultural à molecada carente de famílias pobres.
Parece que a profissão de professor insistia em cruzar meu caminho. E olhando bem, nada mais natural. Afinal, eu queria ser bombeiro - salvar vidas, ajudar pessoas. E nesse outro rumo descobri um trabalho verdadeiramente útil. Útil à mim, ao próximo, à sociedade e à Terra. Útil à tudo e à todos, sobretudo na carreira de Humanidades, à qual me dediquei após amargos 20 anos no mercado corporativo de informática em segmentos dos setores financeiros e de serviços. Nesta nova profissão descobri mais que um trabalho. Nela, descobri uma missão, uma atuação de muita responsabilidade com a comunidade (conceito em extinção no sistema individual competitivo) e de muita satisfação pessoal. Se numa profissão “comercial” se ganha algum dinheiro para gastar em aparências e conquistas supérfluas, numa profissão de “função social” se ganha uma imensa satisfação existencial, onde a vida é conjugada ao trabalho e ao resgate da dignidade do espírito humano, esta subtraída nos empregos comercias alienantes do sistema produtivo.
A missão é árdua, sabemos. Há muitas pedras no caminho a serem superadas, dentre elas o desdém hierárquico-social pelo educador, a desvalorização da educação (que não seja a instrução-adestramento técnico científico profissional) no sistema produtivo em todos seus níveis e a própria dificuldade material-financeira da profissão de professor, decorrente desta corrupção sistemática e seus desvalores.
Mas nada se compara ao prazer de atuar em educação com o sentimento de construção de algo intangível materialmente e maior espiritualmente, frente ao desgosto de atravessar tantas e tantas reuniões de negócios com a certeza do tempo perdido na breve vida. Nada se compara à satisfação de poder construir com educação novas possibilidades frente à destruição inerente atual, rumo a um novo ideário que transforme, revolucione e reverta o catastrófico quadro planetário do falacioso modelo de progresso imposto pelo sistema, repetido inquestionadamente e idolatrado por gerações através da História. História, aliás, minha nova casa. Meu novo endereço. Minha nova vida.
Ser professor de Humanidades não se resume a repassar conteúdos e conhecimentos convencionados e ditados. Não é simplesmente instruir, no sentido de ditar verdades pré-definidas. Ser professor é, sobretudo, a arte de desconstruí-las, mostrando que nada se dá como “natural” ou “normal” e que tudo é possível no sentido de se trilhar novos caminhos. Educar não consiste, portanto, no ofício de formatar o pensamento com ditames apropriados por instituições acadêmicas, privadas ou governamentais, mas na tarefa de potencializar a capacidade de questionamento e instigar o pensamento crítico à uma sociedade integrada ao meio natural ao qual pertencemos, e não o contrário em voga.
Educação, assim como a vida, é desta forma uma pergunta, não uma resposta, tendo no professor o suporte à respostas de uma base de conhecimento pré-concebido historicamente à construção de novos saberes através do “livre” pensamento, onde o mesmo jamais esteja restrito à imposições de interesses de poder material e onde nenhuma questão jamais se dê por esgotada.
Ser professor é sobretudo ser um provocador. Contra a inércia, contra o estabelecimento, contra qualquer tipo de ordem proprietária, autoritária, violenta e destrutiva. A vida é o eterno movimento, e só o movimento pode nos libertar.
Nestes tempos de esgotamento geral, que urgem como nunca por mudanças, que estas venham através de uma nova educação e contando sempre conosco, professores - espíritos críticos em movimento.
Saudações à todos dessa luta - professores deste mundo!

(RL)

29 de setembro de 2013

Mujica

Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.
Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de intercâmbios funestos, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.
Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — por que, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.
Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.
Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.
Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.
Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.
Carrego o dever de lutar por pátria para todos.
Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferências e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.
A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.
O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.
Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.
O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.
Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.
Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.
O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.
Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.
Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.
Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.
A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.
Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.
O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.
Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.
Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.
Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.
Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões…
Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.
Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.
Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.
Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegano a nossos limites biológicos.
Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.
A cobiça, tão negatica e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.
Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.
Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é “tudo”, essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.
Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.
Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.
Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os gobernos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.
A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra cuando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.
Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.
Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.
As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.
Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.
Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.
A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.
Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.
Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.
Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.
Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.
O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.
Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.
Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso “nós”.
Obrigado. 
 
Jose "Pepe" Mujica 
 
* Presidente da República Oriental do Uruguai; Assembléia da ONU - 2013

8 de setembro de 2013

Queremos ser como eles?


Em um formigueiro bem organizado, as formigas-rainhas são poucas e as formigas-operárias, muitíssimas. As rainhas nascem com asas e podem fazer amor. As operárias, que não amam, trabalham para as rainhas. As formigas-polícias vigiam as operárias e vigiam também as rainhas.

A Vida é uma coisa que acontece enquanto você está ocupado fazendo outras coisas, dizia John Lennon....
Em nossa época, marcada pela confusão dos meios e dos fins, não se trabalha para viver: vive-se para trabalhar. Uns trabalham cada vez mais porque precisam cada vez mais do que consomem; e outros trabalham cada vez mais para continuar consumindo mais do que precisam.

Parece normal que a jornada de trabalho de oito horas pertença, na América Latina, aos domínios da arte abstrata. O emprego duplo, que as estatísticas raramente confessam, é a realidade de muitíssimas pessoas que não têm outra maneira de evitar a fome. Mas parece normal que o homem trabalhe como formiga, no auge do desenvolvimento? A riqueza conduz à liberdade, ou multiplica o medo da liberdade.

Ser é ter, diz o sistema. E a armadilha consiste no seguinte: quem mais tem, mais quer; e no frigir dos ovos as pessoas acabam pertencendo às coisas e trabalhando debaixo de suas ordens. O modelo de vida da sociedade de consumo, que hoje em dia se impõe como modelo único em escala universal, converte o tempo num recurso econômico, cada vez mais escasso e mais caro: o tempo é vendido, é alugado, serve como investimento. Mas quem é o dono do tempo? O automóvel, o televisor, o vídeo, o computador, o telefone celular e as outras contra-senhas da felicidade, máquinas nascidas para ganhar tempo ou para passar o tempo, mas que acabam se apoderando do tempo. O automóvel, por exemplo, não só dispõe do espaço urbano: dispõe também do tempo humano. Em teoria, o automóvel serve para economizar tempo, mas na prática o devora. Boa parte do tempo de trabalho se destina ao pagamento do transporte ao emprego, que além do mais acaba sendo um glutão de tempo, cada vez mais voraz, graças aos engarrafamentos de trânsito nas babilônias modernas.

Não é preciso ser sábio em economia. Basta o bom senso para supor que o progresso tecnológico, ao multiplicar a produtividade, diminui o tempo de trabalho. O bom senso, porém, não previu o pânico ao tempo livre, nem às armadilhas do consumo, nem ao poder manipulador da publicidade. Nas cidades do Japão, trabalha-se 47 horas por semana há vinte anos, enquanto na Europa o tempo de trabalho foi reduzido, mas muito lentamente, num ritmo que não tem nada a ver com o acelerado desenvolvimento da produtividade. Nas fábricas automatizadas, existem dez operários onde antes havia mil; mas o progresso tecnológico gera desocupação em vez de ampliar os espaços de liberdade. A liberdade de perder tempo: a sociedade de consumo não autoriza tamanho esbanjamento. Até as férias, organizadas pelas grandes empresas que industrializam o turismo de massas, converteram-se numa ocupação exaustiva. Matar tempo: os balneários modernos reproduzem a vertigem da vida cotidiana dos formigueiros urbanos.

Dizem os antropólogos que nossos ancestrais do Paleolítico não trabalhavam mais do que vinte horas por semana. Dizem os jornais que nossos contemporâneos da Suíça votaram, no final de 1988, um plebiscito que propunha reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais: reduzir a jornada sem reduzir os salários. Os suíços votaram contra.

As formigas se comunicam tocando suas antenas, umas em outras. As antenas de televisão nos comunicam com os centros de poder do mundo contemporâneo. A telinha nos oferece o sonho da propriedade, o frenesi do consumo, a excitação da competição e a ansiedade do êxito, como Colombo oferecia quinquilharias aos índios. Mercadorias exitosas. A publicidade não nos conta, porém, que os Estados Unidos consomem atualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde, quase a metade do total de drogas tranquilizantes vendidas no planeta. Nos últimos vinte anos, a jornada de trabalho aumentou nos Estados Unidos. Nesse período, a quantidade de vítimas de stress duplicou.

- Eduardo Galeano

A Guerra pela TV

Deve ser louco quem senta seguro na sala
Enquanto a vida dos outros
Está por um míssil, uma bala.

Porque a vida nunca é dos outros.
É de todos
Ou de ninguém.

Deve ser louco quem faz da tela uma cela
E assiste calmamente à morte
Pouco antes da novela. 

(Carvalho, Cláudio. A Guerra Pela Tv in: Assalto à Cidadania dos Deuses. Rio de Janeiro Garamond, 2003. PP 35)

13 de julho de 2013

Fragmento #1371


Reinvente-se,
meu amigo!

Reinvente-se!

Pois quem
não se reinventa -

Conserva-dor.

(RL)

Fragmento #1373

 
A democratização da mídia deve ser parte inerente do projeto da Reforma Política, constatada, evidenciada e explicitada historicamente a corrupção do chamado "processo democrático representativo" através da manipulação sócio-eleitoral pela grande máquina midiática oligárquica. Não dá pra falar seriamente em reforma política sem fechar o cerco ao patronato da (des)informação em massa, da alienação
e espetáculo, da (des)educação cidadã, da (des)politização social e (de)formação da opinião pública, que é parte da rede da elite empresarial e latifundiária que financia campanhas, apóia golpes e empossa seus marionetes, seus heróis nacionais e seus salvadores da pátria (sic!) no circular-vicioso circo eleitoreiro, histórica contramão dos interesses sociais. Num momento de profunda reflexão nacional acerca do estado, das insituições, da consciência de classes e da participação política da sociedade civil, esse braço da classe dominante corruptora e fraudulosa não pode mais prosseguir impune. Ou todo esse chacoalhão nacional não passará de falaciosa repetição histórica, troca de personagens com novas caras e velha práxis e reacomodação das personagens no poder. Pelo fim da mídia oligárquica e pela regulação e democratização dos veículos de comunicação no país. ‪#‎pelofimdoPIG

 
(RL)
 

18 de junho de 2013

Fragmento #13617


O Movimento é lindo. O Movimento é sexy. O Movimento que rompe a inércia. Desacata a autoridade ultrajante que não se faz valer e que não se dá ao respeito. O palácio foi cercado, o templo invadido. O concreto rachou. O Movimento: há que observá-lo, mantê-lo e preservá-lo, com carinho e cuidado. Não se confundir entre discursos de patriotismos vazios, como os nacionalistas de outrora. Há que mirar além. Independência e autonomia popular ao Movimento, longe de quaisquer lideranças partidárias que só servem à seus próprios interesses, longe da violência dos radicalismos e longe da mídia oligárquica urubu que tentará se apropriar do mesmo, espetacularizando-o e banalizando-o para enfraquecê-lo ou apoiando-o para invertê-lo e manobrá-lo. E muita atenção com os armados mal amados, historicamente assaltantes dos anseios sociais. Medíocres, conformistas e incrédulos - abram alas para que o Movimento passe livre. Um passo a frente, Brasil.


(RL)

16 de junho de 2013

Fragmento #13613


Qualquer ação social sempre será marginalizada pela classe senhorial, pelo patronato, por suas tropas leais e pela imprensa oliqárquica. Baderna, desordem, vadiagem, vandalismo, marginais, forças do mal, etc, etc, etc. É o mesmo discurso desde sempre. A história se repete, de Cabral à Maluf, de Pombal à Collor, dos Bragança à Sarney, de Saraiva-Cotegipe à FHC, de Getúlio à Médici-Geisel. Não o fosse, não seria a História. Enquanto isso, no JN da Globo, produto de consumo da classe mediana, ameba social nacional, de um lado a "baderna" dos marginais questionadores e reivindicadores de direitos e justiça, e do outro, a Copa das Confederações, com Felipão e Murtosa correndo ao redor do campo durante o treino da seleção, Neymar comentando seu novo contrato e penteado e reclamando do questionamento "jornalístico" sobre sua recorrente ausência de gols. Esse é o Brasil. O dos medíocres menores dominados pelo medíocres maiores, contrários e reacionários à qualquer alteração da "ordem". Onde o latifúndio, a senzala e o trono trocaram de nome, se rebatizaram e se reformataram através do tempo.
 
(RL)

18 de fevereiro de 2013

Fragmento #130126


Pus meu cargo “à disposição” por várias vezes e em várias situações, ante a questões imorais, antiéticas, desumanas ou desonrosas, impostas por aquilo que os medíocres chamam de “regras do mercado". Questões estas confrontadas ao meu valor, e não meu preço.
Há que se delinear a diferença entre valor e preço, para que sejas um homem, um animal filho da Terra, e não uma coisa, um produto.

Em todas estas situações, testemunhei nos demais o silêncio, o enxovalho, a humilhação consentida, a alma vendida e a honra perdida ao servir de capacho humano a escalões. E depois, como que querendo limpar a consciência com sofismas, cacarejavam em bandos, em almoços, salas sociais e cafés: "Mercado é isso - nos prostituímos e jogamos o jogo. As coisas são o que são".

Outra pérola deles - "Todo mundo tem seu preço". Entretanto, quase ninguém mais tem valor. A máxima deles - "Manda quem pode, obedece quem tem juízo." Entretanto, nós, que não eles, temos valor e não estamos à venda.

É o legado que queremos deixar nos autos de nosso tempo. Pagamos para que não nos comprem. Nós, que não somos ele$. Pobres covardes, servos do medo, coniventes à chibata secular e à aniquilação da própria espécie.
 

(RL)

7 de fevereiro de 2013

Conceitos: a urgência global de repensá-los


Por Leonardo Boff, enviado por e-mail pela Secretaria Geral do MST


Nutro a convicção, partilhada por outros analistas, de que a crise sistêmica atual nos deixará como legado e desafio a urgência de repensar a nossa relação para com a Terra, para com os modos de produção e consumo, reinventar uma forma de governança global e uma convivência que inclua a todos na única e mesma Casa Comum. Para isso é forçoso rever conceitos-chaves, que como bússola nos possam apontar um novo norte. Boa parte da crise atual se deriva de premissas falsas.

O primeiro conceito a rever é o de desenvolvimento. Na prática ele se identifica com o crescimento material, expresso pelo PIB. Sua dinâmica é ser o maior possível, o que implica exploração desapiedada da natureza e a geração de grandes desigualdades nacionais e mundiais. Importa abandonar esta compreensão quantitativa e assumir a qualitativa, esta sim como desenvolvimento, bem definido por Amartya Sen (prêmio Nobel) como “o processo de expansão das liberdades substantivas”, vale dizer, a ampliação das oportunidades de modelar a própria vida e dar-lhe um sentido que valha a pena. O crescimento é imprescindível pois é da lógica de todo ser vivo, mas só é bom a partir das interdependências das redes da vida que garantem a biodiversidade. Em vez de crescimento/desenvolvimento deveríamos pensar numa redistribuição do que já foi acumulado.

O segundo é o manipulado conceito de sustentabilidade que, no sistema vigente, é inalcançável. Em seu lugar deveríamos introduzir a temática, já aprovada pela ONU, dos direitos da Terra e da natureza. Se os respeitássemos, teríamos garantida a sustentabilidade, fruto da conformação à lógica da vida.

O terceiro é o de meio-ambiente. Este não existe. O que existe é o ambiente inteiro, no qual todos os seres convivem e se interconectam. Em vez de meio ambiente faríamos melhor usar a expressão da Carta da Terra: comunidade de vida. Todos os seres vivos possuem o mesmo código genético de base, por isso todos são parentes entre si: uma real comunidade vital. Este olhar nos levaria a ter respeito por cada ser, pois tem valor em si mesmo para além do uso humano.

O quarto conceito é o de Terra. Importa superar a visão pobre da modernidade que a vê apenas como realidade extensa e sem inteligência. A ciência contemporânea mostrou e isso já foi incorporado até nos manuais de ecologia, que a Terra não só tem vida sobre ela, mas é viva: um superorganismo, Gaia, que articula o físico, o químico e as energias terrenas e cósmicas para sempre produzir e reproduzir vida. Em 22 de abril de 2010 a ONU aprovou a denominação de Mãe Terra. Este novo olhar, nos levaria a redefinir nossa relação para com ela, não mais de exploração mas de uso racional e respeito. Nossa mãe a gente não vende nem compra; respeita e ama. Assim com a Mãe Terra.

O quinto conceito é o de ser humano. Este foi na modernidade pensado como desligado, fora e acima da natureza, fazendo-o “mestre e senhor”dela (Descartes). Hoje o ser humano está se inserindo na natureza, no Universo e como aquela porção da Terra que sente, pensa, ama e venera. Essa perspectiva nos leva a assumir a responsabilidade pelo destino da Mãe Terra e de seus filhos e filhas, sentindo-nos cuidadores e guardiães desse belo, pequeno e ameaçado Planeta.

O sexto conceito é o de espiritualidade. Esta foi acantonada nas religiões quando é a dimensão do profundo humano universal. Espiritualidade surge quando a consciência se apercebe como parte do Todo e intui cada ser e o inteiro Universo sustentados e penetrados por uma força poderosa e amorosa: aquele Abismo de energia, gerador de todo o ser. É possível captar o elo misterioso que liga e re-liga todas as coisas, constituindo um cosmos e não um caos. A espiritualidade nos confere sentimento de veneração pela grandeur do universo e nos enche de autoestima por podermos admirar, gozar e celebrar todas as coisas.

Temos que mudar muito ainda para que tudo isso se torne um dado da consciência coletiva! Mas é o que deve ser. E o que deve ser tem força de realização.


Leonardo Boff é autor de Opção-Terra:a solução para a Terra não cai do céu, Record 2010.


Fonte: Vi o Mundo

25 de janeiro de 2013

12 de janeiro de 2013

Mídia Brasileira

 
#1 - A fórmula do perfeito do pulha midiático - eloquência de um pastor-sacerdote-exorcista vociferando suas pseudo-teses reacionárias disfarçadas de intelectualidade engajada. 
 
* à ratazana Jaboriana


#2 - Preconceito, racismo, fomentação de ódio ideológico, étnico e cultural, elitismo, violência, militarismo e imperialismo legitimados, propaganda de consumo em massa, propaganda política explícita à serviço de seus proprietários e financiadores, e, sobretudo, contrução da desinformação, ou seja, ocultação, manutenção da ignorância e manipulação social (adestramento) compõe o eixo central dos principais editoriais em voga (CNN, BBC, Reuters, Globo, Veja, Abril, Estadão, Folha, Record, etc) que ininterruptamnte invadem nossos lares e mentes, nos ofendendo o intelecto através de falaciosas justificativas impostoras por via de sensacionalismo, entretenimento alienador massificado e jornalismo parcial de propaganda e heroificação dos detentores do poder nacional e global, explorando as conseqüências dos problemas sociopoliticoeconomicos, e não suas causas, cuja atenção da opinião pública é desviada. A mentalidade precede a criação da realidade. Deformação de opinião e deformação mental resultam em consequência social e ambiental. Qualquer educador, agente social ou matuto mais atento sabe disso. "- Por uma sociedade que pense, e que não apenas obedeça e reproduza."


#3 - Não desejo, como alguns, que as emissoras parem de exibir seus "reality shows", novelas e shows de horrores sensacioanalistas. Desejo sim, que essa pobre, infeliz e imensa maioria popular, escrava midiática, pare de assistir, consumir e apoiar a mídia, mecanismo perverso de entretenimento emburrecedor, de manipulação de opinião pública e (re)produtor de desinformação sobre a sociedade brasileira. O mesmo se aplica a todo e qualquer veículo de comunicação de propriedade das oligarquias dominantes desse país (Globo, Veja, Abril, Estadão, Folha, Record, etc). Como expertamente disse Drummond nos anos 70, quando solicitada sua última mensagem aos telespectadores, pelo reporter que o entrevistava ao vivo - "Mantenham seus receptores desligados!"


(RL)